#3BLOGPROGSP: LEIA A CARTA DO 3º ENCONTRO DE BLOGUEIR@S E ATIVISTAS DIGITAIS DE SÃO PAULO

Foto: Christian BragaFoto: Christian Braga

O 3º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo reuniu mais de 100 pessoas do estado nos dias 9 e 10 de junho para discutir a liberdade de expressão em tempos de exceção. Com transmissão online pela TVT, o evento, que foi foi sediado no Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindisep), tem como produto final a Carta do 3º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo (leia abaixo).

Ao longo dos dois dias de atividades, o #3BlogProgSP realizou discussões sobre a participação do monopólio midiático na ruptura da ordem democrática e na sustentação ideológica do projeto golpista em curso no país, o papel de resistência e disputa de narrativa por parte das mídias alternativas e a luta pela democratização da comunicação no país.

Além dos debates, também ocorreram rodas de conversas sobre a relação da mídia hegemônica com as questões LGBT, das mulheres, do genocídio negro nas periferias e o racismo estrutural. Na parte prática, os participantes do Encontro puderam, também, participar de oficinas de produção de memes (conduzida pela Mídia Ninja), de transmissão ao vivo (pelos Jornalistas Livres) e de fotografia (com Sergio Silva, da Fundação Perseu Abramo).

Confira a carta aprovada ao final do #3BlogProgSP, que sintetiza o evento e seus encaminhamentos.

Carta do 3º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo

Nós blogueiras, blogueiros e ativistas digitais, reunidos em São Paulo nos dias 09 e 10 de junho de 2017 para o 3º Encontro Estadual de Blogueir@s e Ativistas Digitais de SP, reafirmamos nosso compromisso com a luta pela liberdade de expressão, de imprensa e pela democratização dos meios de comunicação. Também confirmamos o nosso compromisso com a democracia e com o restabelecimento do Estado democrático de Direito do Brasil.

Reunidos para discutir e trazer à tona temas relevantes da conjuntura, sob à perspetiva da comunicação, denunciamos o papel da mídia tradicional que tem participado como agente político ativo em diversas pautas e atacam os direitos humanos das e dos cidadãs e cidadãos do país.

A mesma mídia que foi protagonista do golpe jurídico-midiático-parlamentar do Brasil, que destituiu em 2016 a presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff e instaurou o governo golpista de Michel Temer e sua corja, se alia aos empresários e ruralistas mais uma vez em uma ofensiva pela retirada de direitos do povo brasileiro.

Repudiamos a mídia corporativa que propagandeia a reforma trabalhista como uma modernização, e não como a precarização e o fim da CLT e de direitos já consolidados que é. Repudiamos os jornalões que enganam a população com a tese de um falso déficit da previdência, colocando como solução, mais uma vez, a reforma que acabará com a aposentadoria.

Repudiamos também a mídia sensacionalista que incentiva e sustenta o genocídio da população negra deste país. Assim como a mídia machista e patriarcal que estabelece padrões de beleza, de gênero, de sexualidade, de família e de vida que ignoram a complexidade e a diversidade da população brasileira.

Entendemos que mídia alternativa e independente, por sua vez, precisa se munir e estar preparada para fazer o contraponto à mídia corporativa. Os comunicadores populares devem exercer o papel de informar e de formar a população acerca destas pautas. Para nós, o fortalecimento da rede de comunicadores, movimentos sociais e culturais, sindicatos, partidos e agentes políticos progressistas é a nossa maior ferramenta para furar o cerco da grande mídia e atingirmos esse objetivo.

O Brasil é um dos países com maior concentração dos meios de comunicações do mundo. Desta forma, a internet e os ativistas digitais são componentes estratégicos para a construção de uma contranarrativa àquela capitalista, racista, machista, patriarcal e LGBTfóbica estabelecida nos grandes meios.

Em São Paulo, enfrentamos também ataques dos governos tucanos de Geraldo Alckmin e João Doria, que juntos empreendem uma ofensiva entreguista e desumana. Avança a tentativa de privatização de equipamentos públicos, em especial os culturais e educacionais.

Nós comunicadoras e comunicadores também nos colocamos ao lado das companheiras e companheiros do movimento cultural em defesa da cultura. Pelo descongelamento das verbas do setor, contra desmonte de políticas culturais já consolidadas na cidade, em defesa das bibliotecas públicas, contra a censura de artistas, em defesa do VAI e demais programas.

Nós blogueiras, blogueiros e ativistas digitais também entendemos como ações fundamentais para o próximo período:

  1. Criar um canal com os participantes do encontro para que esse diálogo seja continue;

  2. Construir espaços de participação, fazer pontes, romper com nossas próprias bolhas e melhorar as articulações com os diversos espaços parceiros;

  3. Nos apropriar de linguagens atuais e mais leves para chegar a todas as camadas da sociedade;

  4. Dialogar mais nas periferias, em especial com o efervecente movimento cultural;

  5. Ampliar a nossa coberturas para as periferias e interiores, sem reproduzir esteriótipos;

  6. Combater e denunciar padrões machistas, racistas e lgbtfóbicos em todos os espaços, inclusivo nos nossos;

  7. Debater demarcadores de interseccionalidade;

  8. Construir unidade de ação de luta;

  9. Disputar as narrativas hegemônicas;

  10. Fortalecer a rede de comunicadores, movimentos sociais e culturais, sindicatos, partidos e agentes políticos progressistas para ampliar o alcance das pautas progressistas;

Fora Temer! Fora Alckmin! Fora Doria! Nenhum direito a menos! DIRETAS JÁ! Viva a liberdade de expressão!

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PODER SEM LIMITES DA MÍDIA TURBINA ESTADO DE EXCEÇÃO, OPINAM DEBATEDORES

As graves ameaças à liberdade de expressão desatadas pelo Estado de exceção em curso no país foram tema da abertura do 3º Encontro Estadual de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo, nesta sexta-feira (9). Gleisi Hoffmann (senadora e presidenta nacional do PT), Luciana Santos (deputada e presidenta nacional do PCdoB) e os jornalistas Maria Inês Nassif e Altamiro Borges participaram do debate no Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep). A mediação ficou por conta de Renata Mielli, do Barão de Itararé e do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

Com cerca de 100 presentes e mais de 13 mil espectadores acompanhando a transmissão ao vivo feita pela TVT, os debatedores ressaltaram dois aspectos cruciais para entender o que se passa no país: o erro dos governos Lula e Dilma em não enfrentar o tema da democratização dos meios de comunicação e o papel decisivo do monopólio midiático no processo ilegal de impeachment que lançou Michel Temer ao poder.

“A mídia, que concentra o poder econômico, foi o braço operacional do golpe”, opina Hoffmann. O sistema de comunicação brasileiro, segundo ela, padece de um atraso significativo e extremamente prejudicial à democracia. “Essa estrutura de comunicações e o vazio regulatório que temos vem da ditadura militar. Era de interesse da ditadura criar uma estrutura que a ajudasse a controlar a informação e a opinião pública”, opina. “Por isso concessões foram distribuídas para poucos grupos econômicos”.

Eleita recentemente presidenta do PT, Hoffmann reconhece que o partido falhou em não dar a devida importância ao debate em torno da democratização da comunicação. “É preciso fazer autocrítica. Precisávamos ter trazido esse debate para a sociedade. Hoje, pagamos o preço. É tarde, mas teremos de aprender com isso”, afirma. “Colaboramos para manter esse status quo e viramos vítimas dele. Não fosse a ação de vocês, blogueiros, mídias alternativas e ativistas digitais, seria pior. Vocês seguraram a peteca mesmo não tendo a atenção merecida. São fundamentais para garantir o mínimo de democracia informativa”.

Segundo ela, enquanto os grandes grupos privados de comunicação seguem interditando qualquer discussão sobre a regulação do setor, países considerados democracias avançadas dispõem de diversas ferramentas para impor regras e limites ao poder da imprensa. “Países como Estados Unidos, França e Inglaterra têm leis e instituições democráticas para regular o mercado e evitar o monopólio econômico”, exemplifica.

Na Europa, em muitos países, também há leis para assegurar qualidade em relação ao conteúdo, conforme relata Hoffmann. “Seria a França bolivariana? Já que possui um Conselho Audiovisual que regula o setor?”, questiona. “Esse Conselho, além de outorgar concessões, exige que meios audiovisuais reflitam e preservem a diversidade cultural e política do país. Isso implica na distribuição de concessões para todos os segmentos políticos e sociais da França, por exemplo”.

Na avaliação da senadora, os meios privados interditam essa discussão para manter seu poder intocado e continuarem a decidir os rumos políticos e econômicos do país. “Não fosse a ação dessa mídia oligopólica, teria sido impossível a instituição desse Estado de exceção no país, que persegue trabalhadores, movimentos sociais e todos que lutam contra o governo ilegítimo de Michel Temer”.

Se quisermos defender nossa jovem democracia e seriamente ameaçada, complementa Hoffmann, temos de enfrentar o debate da democratização da mídia. Nesse sentido, a presidenta do PT anuncia que o partido realizará um seminário, com todas as suas bancadas, para esmiuçar o tema da regulação da mídia, com presença de referências internacionais na área.

Luciana Santos: 'Em um ano de golpe, vivemos uma década de retrocessos'Luciana Santos: ‘Em um ano de golpe, vivemos uma década de retrocessos’

Luciana Santos, presidenta do PCdoB, avalia que o ataque ao projeto nacional e popular levado a cabo no país nos últimos 14 anos começou desde que Lula chegou à presidência. “Foi uma disputa permanente desde 2003. O que unifica as forças do lado de lá é o modelo da Operação Mãos Limpas, da Itália, replicado no processo da Lava Jato, cujo braço forte é a mídia”, assinala. “A finalidade em torno dessa unidade era clara: derrubar Dilma Rousseff”.

A radicalização da luta política e ideológica é produto desse processo, na opinião de Santos. “O dia da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, 17 de abril, para além da cena quixotesca da forma de como os votos foram declarados, foi fatídico. Ali, ficou simbolizado o deslocamento das forças políticas de centro para a direita”, argumenta. “Se a história só se repete como farsa ou como tragédia, vimos a farsa e agora vemos a tragédia. Em um ano de golpe, vivemos uma década de retrocessos”.

Também em tom de autocrítica, a deputada exalta os avanços conquistados pelo povo brasileiro, mas alerta para a falta de reformas estruturantes – dentre elas, a do sistema de comunicação. “Erramos no que diz respeito à supra-estrutura do Estado brasileiro. Tiramos 40 milhões de brasileiro debaixo da linha da pobreza; fizemos obras seculares, principalmente no norte e nordeste; viabilizamos o acesso ao ensino superior, mas em relação à supra-estrutura, avançamos quase nada. Não fizemos reformas estruturantes e democratizar a comunicação era uma delas”.

Ela elege como exemplo o ataque do governo Temer à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) para ilustrar a facilidade com que o golpismo reverteu conquistas e avanços importantes para a sociedade brasileira. “Tínhamos que fortalecer a comunicação pública – não comunicação chapa-branca, mas seus organismos democráticos, como os Conselhos. Qual foi uma das primeiras medidas do usurpador Temer? Ir pra cima da EBC”.

Disputa de hegemonia na ordem do dia

O momento atual remete à seguinte pergunta: “aonde foi que erramos?”. A reflexão é de Maria Inês Nassif.  “Falando aos blogueiros: é hora de nós, jornalistas de esquerda, jornalistas com compromisso, darmos uma visão real do que tem ocorrido no momento em que instituições são golpeadas pela manipulação da mídia”, defende. “O ‘aonde foi que erramos’ começa na confusão teórica de que vitória eleitoral significaria, automaticamente, a conquista da hegemonia”.

Em sua visão, o governo demonstrou certo conformismo em relação ao cenário dos meios de comunicação. Havia uma convicção, segundo ela, de que os programas sociais do governo, as conquistas das classes menos favorecidas, a ascensão dos miseráveis à sociedade de consumo defenderia, com os votos de seus beneficiários, dos ataques da mídia hegemônica.

O discurso seletivo sobre a corrupção, na avaliação de Nassif, foi outro fator decisivo para a intensificação da agenda conservadora no país. “Esse discurso foi se aguçando na boca da direita e a agenda foi avançando, culminando no questionamento de conquistas históricas de segmentos da sociedade, como por exemplo jogar a mulher de volta à uma posição defensiva”.

A Globo fez corações e mentes enquanto a estrutura permanecia intocada, comenta a jornalista. “Não discutimos a questão da mídia. Mantivemos uma mídia tradicional com poder financeiro suficiente para, permanentemente, chantagear o próprio governo”, frisa. “Não estou jogando contra nossos governos de esquerda. Longe disso. Gostaria, sim, de restabelecermos a democracia e que alcancemos a vitória mais uma vez, só que, agora, entendendo a importância de disputar ideias e disputar a hegemonia”.

Único homem em uma mesa repleta de mulheres, Altamiro Borges foi o último a falar. O presidente do Centro de Estudos de Barão de Itararé avalia que, apesar de o golpe ser classificado comumente como judicial, parlamentar e midiático, a mídia privada é o seu grande protagonista. “Se não fosse essa mídia, não teríamos o parlamento que temos O aumento da bancada bala tem a ver com os programas policialescos; o aumento da bancada da bíblia, que não tem a ver com religião, mas com mercadores na TV… esse parlamento é um horror e foi eleito pela mídia”, detona. “Não são nem parlamentares ideologicamente de direitas. São parlamentares fisiológicos, que se submetem à agenda e à pressão da mídia. Vivem relação de sedução e medo da mídia”.

Não fosse o partidarismo do oligopólio midiático, o “juizeco” de primeira instância Sergio Moro seria apenas um “juizeco” de primeira instância, opina Borges. “Só agora tem gente da mídia falando de abusos da Lava Jato. Descobriram agora que tem abusos? Por que será? Por que chegaram perto de seus umbigos e amigos? São prisões arbitrárias, delações praticamente sob torturas, vazamentos seletivos”, salienta.

Apesar de sinais de que o jogo pode ser revertido, graças ao povo que está indo às ruas e aos trabalhadores que tem ido à luta, o blogueiro avalia que o cenário ainda é muito sombrio. “O casamento do partido da Lava Jato, que reúne setores do Ministério Público Federal, Supremo Tribunal Federal e Polícia Federal, com partidos golpistas e a mídia golpista, gera no Brasil uma situação de Estado de exceção”, denuncia.

A razão da situação de exceção, na avaliação de Borges, é justamente por ser a única forma de se tocar um projeto de desmonte do Estado, do trabalho e da nação. “Esse Estado precisa ser autoritário. Por isso se convoca o exército à manifestação do #OcupaBrasília, por isso policiais passam a se achar reis e matar gente nas periferias e massacrar trabalhadores rurais”, diz, chamando atenção para a criminalização galopante dos movimentos sociais.

Em relação ao movimento de blogueiros e ativistas digitais, Borges lembra que uma das primeiras medidas do governo Temer, além de “descer o pau na cultura e na EBC”, foi justamente contra as mídias alternativas.”Na semana do 5º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais, ocorrido em abril de 2016, em Belo Horizonte, com a presença de Dilma, Temer suspendeu o contrato de patrocínio ao evento”, recorda. “O usurpador também retirou as  merrecas que iam para revistas e blogs importantíssimos no contraponto informativo”, acrescenta. “Essas mídias estão sendo asfixiadas financeiramente. Ao mesmo tempo em que asfixia vozes dissonantes, o governo aumenta em 1378% a publicidade destinada à revista mercenária chamada IstoÉ, 470% para a revista Veja e por aí vai”.

Sobre o comportamento dos donos da mídia no país, Borges é assertivo: “Mídia, quando fala em liberdade de expressão, defende a liberdade de monopólio”. “Será que essa mídia venal não sabia que Eduardo Cunha é um bandido? Não sabia da quadrilha do Temer? Desse rapaz que está virando pó, terminando a carreira, o Aécio? Sabia de tudo, mas escondeu o tempo inteiro. Manipula na economia, manipula na política, manipula em tudo”, critica.

Basta ver a postura dos meios privados na questão da reforma trabalhista para entender o seu viés partidarizado, explica o blogueiro. “É cronometrado: todos favoráveis à reforma. Lógico, afinal são meios de patrões, e patrão adora trabalho escravo. Não é à toa que na imprensa predomina a pejotização, que já é terceirização. Sobre reforma previdenciária, o mesmo, afinal, são os interesses dos banqueiros”. O que a mídia faz no país, segundo ele, é “bandidagem pura”: “Segundo várias fontes, nos depoimentos de delação que ainda não vazaram, trazem vários crimes cometidos pelos donos da mídia, mostrando relação promíscua entre mídia, governo e grandes empresas”.

Outro ponto destacado por Altamiro Borges é a importância da disputa em torno da Internet. O Marco Civil da Internet, espécie de Constituição para o campo da Internet no Brasil, foi uma grande conquista para a sociedade, mas não serve para as corporações. A lei, segundo o jornalista, está sob risco. “Se pedagiarem a Internet como querem, os 12  mil que estão assistindo esse debate agora não assistirão mais nada”.

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PARA DEBATEDORES, BATALHA COMUNICACIONAL É CENTRAL NA LUTA POLÍTICA NO CONTINENTE

A batalha comunicacional na América Latina foi tema de debate neste sábado (10), durante o  3º Encontro Estadual de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo. Historicamente dominado por oligopólios e monopólios midiáticos, o continente têm vivido experiências que deixam claro: não é possível transformar a realidade social sem superar o pensamento único dos meios privados de comunicação. A avaliação é dos jornalistas Leonardo Fernandes e Marco Piva.

Leonardo Fernandes: 'Para o Estado venezuelano, comunicação é direito de todos'Leonardo Fernandes: ‘Para o Estado venezuelano, comunicação é direito de todos’Ex-correspondente da TeleSur, Fernandes relatou sua vivência na Venezuela para ilustrar o cenário de embate midiático que está no centro da disputa política no país. Após a tentativa de golpe de Estado em 2002, protagonizada principalmente pelos meios tradicionais, aponta, Hugo Chávez compreendeu a dimensão da comunicação para a luta política. “A partir daí, a Venezuela passa a ter mais de dois mil veículos de comunicação alternativos, comunitários e populares. Hoje, devem ser muito mais, pois esse fomento tornou-se política de Estado”, conta.

Tendo vivido no país por cinco anos, Fernandes acredita que o avanço obtido pela Venezuela no campo midiático tem a ver com duas questões. O primeiro é o da importância de se construir alternativas aos grandes canais de radiodifusão – é o caso da TeleSur, que dispõe de grande estrutura e faz sólido contraponto aos meios comerciais.

A outra questão, complementa o jornalista, diz respeito à disputa da hegemonia, que tem mais a ver com a comunicação popular. “Transformar o paradigma da comunicação social na Venezuela é um dos nortes dos coletivos e comunicadores populares. Isso explica porque mesmo com uma maioria de meios privados à direita, a opinião pública segue plural em relação à política”, reflete.

O vasto universo dos coletivos de mídia venezuelanos consagrou-se pela decisão do governo em fomentar a comunicação popular, afirma Fernandes. “Financiar a comunicação desde o povo é uma política de Estado”, explica. “Algumas empresas públicas têm políticas de patrocinar pelo menos um meio popular ou comunitário que seja registrado no Ministério das Comunicações, como é o caso da Companhia Anônima de Telefones da Venezuela (CANTV)”.

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Para além de se fazer jornalismo, aprofunda Fernandes, há um esforço dos coletivos em elaborar espaços de formação em comunicação: “A concepção do Estado revolucionário é essa: a comunicação não é entendida como um serviço, mas como um direito cidadão. O Estado deve garantir que as pessoas se organizem para produzir comunicação”.

Apesar do momento de crise política, econômica e social pelo qual passa a Venezuela, Fernandes defende o país como um exemplo de defesa e garantia do direito à liberdade de expressão. “Ataca-se muito a Venezuela utilizando o argumento de uma suposta restrição à liberdade de expressão”, denota. “Muito por conta de o governo não ter renovado a concessão do canal RCTV em 2006, que foi uma ação legítima”. Para o jornalista, a Venezuela é um dos únicos lugares do mundo onde qualquer cidadão tem a possibilidade de fazer comunicação.

Marco Piva: 'Fortaleza, São Paulo, Maceió também são América Latina'Marco Piva: ‘Fortaleza, São Paulo, Maceió também são América Latina’Apresentador do programa Brasil Latino, na Rádio USP, Marco Piva ressalta que, enquanto os brasileiros continuarem “de costas” para os países e povos vizinhos, será difícil superar o bloqueio informativo em torno do que ocorre na região. “A temática da América Latina não está no dia a dia das pessoas. É como se fôssemos nós aqui e eles lá, os ‘outros’”, coloca. “Não é questão de idioma, é uma construção histórica que nos separa de países irmãos. Pensar a América Latina passa pelo desafio da comunicação”.

Segundo pesquisas, aponta Piva, a América Latina é a região do planeta que mais registra crescimento na participação popular em redes sociais. “É a região que mais investe tempo em mídias sociais”, salienta. O cenário, em sua avaliação, é fértil para pensar a comunicação contra-hegemônica. “Toda forma de comunicação vale à pena, no momento que vivemos”.

Para ilustrar, o jornalista recorre ao exemplo do New York Times, cuja direção justificou a força das redes para extinguir o papel do ombudsman no periódico. “O New York Times demitiu o ombudsman argumentando que, com as redes sociais, ele se torna obsoleto. Os próprios leitores, interagindo com o jornal nas redes, dão conta, de acordo com os diretores do jornal, de apontar erros e contradições”. Nesse sentido, Piva acredita ser fundamental debater os caminhos e desafios para a comunicação contra-hegemônica.

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MÍDIA, MULHERES, RACISMO E A DIVERSIDADE SÃO DEBATES URGENTES

Além de debates sobre mídia e democracia, o 3º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo teve espaço para rodas de conversa sobre a relação dos meios de comunicação com as mulheres, os negros e a diversidade. As discussões ocorreram na manhã do sábado (10), na sede do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindisep).

Jéssica Moreira, do Nós, Mulheres da Periferia, e Beatriz Accioly Lins, doutoranda em Antropologia Social pela USP, foram as provocadoras do debate em torno das mulheres. A atividade, que contou com a mediação de Fernanda Targa, do Levante Popular da Juventude, tratou não apenas da perspectiva pelo qual o monopólio midiático retrata a mulher, mas também como as mídias alternativas e o ativismo digital possibilitam novas abordagens sobre o tema.

Segundo o relatório da roda de conversa, o novo cenário propiciado pelos coletivos de mídia e os meios contra-hegemônicos traz uma mudança fundamental: a mulher passa a ser tratada a partir de suas reivindicações de direitos. Apesar disso, o déficit feminista afeta, também, as mídias alternativas, constituindo um desafio importante a ser pensado e superado.

Racismo estrutural: problema para todas as mídias

Com a coordenação de Douglas Belchior (Negro Belchior), Junião (Ponte Jornalismo) e mediação de Gisele Brito (Rede Jornalistas da Periferia), a roda de conversas sobre o genocídio negro e a comunicação apontou para uma problemática urgente: o racismo não é exclusividade das grandes corporações midiáticas, mas, por ser estrutural, também está impregnado na imprensa de esquerda.

O contexto histórico, da escravidão à marginalização e exclusão dos negros em relação a direitos como o voto, conforme relatado pelos participantes, ajuda a entender o quadro. Quando a periferia é pauta da mídia, geralmente é por conta de criems ou pautas negativas, e quem está com a voz é a polícia ou as autoridades.

Uma forma de constranger as mídias tradicionais, de acordo com o relatório da atividade, é usar as mídias alternativas de forma a criar um diálogo com todos os movimentos em torno da urgência de enfrentar a questão do racismo estrutural.

Diversidade: você se vê na mídia?

Ane Sarinara (Coletivo Luana Barbosa), Andrey Lemos (presidente da União Nacional LGBT – UNA-LGBT) e Léo Moreira Sá, ator, homem-trans e integrante dos Jornalistas Livres, discutiram a ausência do debate sobre a diversidade da sociedade brasileira na mídia.

Segundo Lemos, os processos de comunicação sempre foram estabelecidos de forma violenta, escravagista, racista, como uma forma de controle. Na avaliação dele, esses processos sempre foram utilizados de forma dominante, para pautar o discurso das massas.

A questão, de acordo com o relatório da atividade, não é somente se a mídia mostra a diversidade, mas como ela o faz. A mídia alternativa, de acordo com Leo Moreira Sá, é uma forma de estampar outra imagem das pessoas trans, por exemplo. Para ele, é preciso entender que pautas como a LGBT também é a pauta do povo trabalhador e devem ser discutidos.

As mídias alternativas e o midiativismo, segundo a roda de conversa, são mecanismos fundamentais para a construção de outras narrativas, fundamentais para fazer contraponto a narrativas como a de Jair Bolsonaro, que tem ‘colado’ em muita gente da periferia, por exemplo.

Confira fotos das rodas de conversa:

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MÍDIAS ALTERNATIVAS ESCANCARAM: GOLPE FOI CONTRA OS TRABALHADORES

O golpe não foi contra um partido ou uma presidenta, mas sim contra todos os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, defende Laura Capriglione, em debate realizado neste sábado (10), durante o 3º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo. A jornalista, integrante dos Jornalistas Livres, contou com a companhia do blogueiro Eduardo Guimarães.

Segundo Capriglione, as razões do golpe estão mais do que claras. “O objetivo desse golpe é atacar e limar os direitos dos trabalhadores”, afirma. Para ela, essa é a narrativa que deve ser adotada pelas mídias alternativas para vencer o monopólio dos grandes meios na disputa pela opinião pública. “O golpe é contra Lula e Dilma, mas também contra os negros, que estão sendo massacrados nas periferias, contra os indígenas, contra os secundaristas, a população LGBT. É uma questão de direitos humanos”, avalia.

Denunciar esse quadro é a ordem do dia para o ativismo midiático e os meios contra-hegemônicos, conforme opina. “As mídias alternativas são os guerrilheiros dos dias de hoje, em paralelo, por exemplo, ao que fazia Marighella. Tudo o que a mídia monopolista não mostra, nós estamos mostrando. Obrigando eles, inclusive, a dialogarem com a gente. Eles não conseguem mais inventar a realidade que eles querem, do jeito que querem, porque estamos disputando com eles em tempo integral”.

Capriglione remete ao modus operandi do nazifascismo para exemplificar a ameaça que o Estado de exceção representa à liberdade de expressão: “O que esses regimes fizeram não foi só extinguir o direito de votar. Foi pegar hoje o drogado, pegar amanhã o aleijado, pegar depois o judeu e depois o comunista. O que acontece na Cracolândia é a primeira etapa. Temos de disputar essa narrativa”.

Vítima de condução coercitiva ordenada pelo juiz Sergio Moro, Eduardo Guimarães alerta para os perigos da situação de exceção que se desenha após o impeachment ilegal de Dilma Rousseff. “Em situações de exceção, coisas que nunca aconteceram passam a ocorrer”, coloca. A questão das pedaladas fiscais e a própria pauta da cassação da chapa Dilma-Temer são exemplos claros: nunca foram problema, agora é. “Não tem tanques e bombas nas ruas, mas tem tortura mental e destruição de reputações”, acrescenta.

Apesar de Temer ter se safado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fica clara os dois pesos e duas medidas como as coisas vêm sendo tratadas no Brasil. Sobretudo, pela Justiça, opina Guimarães. Para o autor do Blog da Cidadania, essa forma de tratamento desigual é a característica primeira das ditaduras: “Como diz o jornalista Rodrigo Vianna, é como se estivéssemos entre 1964 e 1968, com a situação se agravando e o regime endurecendo. Mas isso está ocorrendo em um mundo midiático, com tudo sendo transmitido em tempo real”.

Dialogando com Capriglione, o blogueiro também traça paralelo entre os golpes de 1964 e o de 2016. “Golpe de 1964 aconteceu por um motivo simples: tinha gente tirando de rico pra dar pro pobre”, diz. “Não dá pra fazer omelete sem quebrar ovos, e isso é o que ocorre quando se distribui renda. Ocorreu isso com Jango, ocorre agora após os anos de Lula e Dilma”.

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Estão abertas as inscrições para o 3º Encontro Estadual de Blogueir@s e Ativistas Digitais de SP

blogprog3

PROGRAMAÇÃO

09/06 Abertura – Sexta-feira

18h30 Credenciamento
19h Mesa de abertura: Liberdade de expressão em tempos de exceção
• Altamiro Borges – Presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
• Gleisi Hoffmann – senadora pelo PT-PR
• Luciana Santos – deputada federal pelo PCdoB-PE
• Maria Inês Nassif – jornalista
• Mediação: Renata Mielli – Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e FNCD (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação)

10/06 – Sábado

Das 9h às 10h – Comunicação e Blogosfera na América Latina
• Marco Piva – jornalista, apresentador do programa Brasil Latino (Rádio USP).
• Leonardo Fernandes – jornalista, foi correspondente da Telesur no Brasil

Das 10h às 12h – Rodas de conversa

Roda 1: A mulher na mídia
• Jéssica Moreira – Nós, Mulheres da Periferia
• Marcha Mundial das Mulheres
• Beatriz Accioly Lins – Doutoranda em Antropologia Social no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da USP. Mestre em Antropologia Social pelo PPGAS-USP. Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo.
Mediação:Fernanda Targa – Levante Popular da Juventude

Roda 2: Diversidade e comunicação
• Ane Sarinara – Coletiva Luana Barbosa
• Andrey Lemos – presidente nacional da União Nacional LGBT (UNA-LGBT)
• Léo Moreira Sá – Ator, homem-trans e Jornalista Livre
Mediação: Coletivo Manas e Monas

Roda 3: A relação da grande imprensa e o genocídio negro
• Douglas Belchior – Uneafro
• Junião – Cartunista da Ponte Jornalismo
• Tati Preta Soul – mulher preta, Rapper, poeta, militante das periferias e educadora Social no CEDECA Interlagos. Integrante do Coletivo Abayomi Aba- pela Juventude Negra viva desde 2012 e MOJUBÁ – Minha ancestralidade te incomoda.
Mediação: Gisele Brito, Rede Jornalistas das Periferias

12h – Almoço

Das 13h30 às 15h – Oficinas

• Memes – Mídia Ninja
• Fotografia – Sergio Silva – Fundação Perseu Abramo
• Transmissão ao vivo – Jornalistas Livres

Das 15h30 às 17h – Mesa final: Golpes ontem e hoje, 1964 e 2016 – semelhanças

• Eduardo Guimarães – Blog da Cidadania
• Laura Capriglione – Jornalistas Livres
• Rodrigo Vianna – blog Escrevinhador

Das 17h às 18h – Carta do #3BlogProgSP

 

PROCEDIMENTOS PARA A INSCRIÇÃO

1º preencha a Ficha de Inscrição no link: https://goo.gl/Vwu9AG
2º efetue o pagamento através do PagSeguro, de acordo com a sua opção:

R$ 50,00 – público em geral, acesse o link: https://pag.ae/bbj5pVF
R$ 25,00 – estudantes, acesse o link: https://pag.ae/bkj5p3r
(o comprovante de estudo deve ser encaminhado para o e-mail inscricoesblogprogsp@gmail.com)

– Transmissão ao vivo pela Rede TVT (exceto as rodas de conversas e oficinas).
– Certificado de participação.

Dúvidas, encaminhar e-mail para inscricoesblogprogsp@gmail.com

 

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Bem amigos… O jogo da seleção não vai passar na Globo

Vai ser o primeiro Brasil X Argentina que não será transmitido pela Rede Globo. TV Brasil e Facebook exibirão os dois amistosos da seleção que acontecerão nos dias 09 e 13 de junho, na Austrália.

 

O casamento entre a emissora de televisão e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – que resultou num dos maiores monopólios midiático-esportivo do mundo – esteve inabalável por 4 décadas. Agora, a política, as novas tecnologias, e a busca por mais lucratividade são fatores que estremecem a relação entre ambas e podem abrir um novo capítulo na discussão sobre direito de transmissão de eventos esportivos no Brasil.

O poder econômico da Rede Globo nunca abriu brechas para que outras emissoras de televisão pleiteassem a compra dos direitos de transmissão de campeonatos de futebol. A Globo, para não perder a sua força, comprava tudo – o que ia transmitir e o que não ia transmitir. Ou seja, eliminava qualquer possibilidade de concorrência e criava uma situação na qual a sociedade ficava completamente refém da emissora. A Globo impunha o jogo de futebol que a sociedade iria assistir na televisão. Isso teve impactos culturais, como o fato de ser o Flamengo o time de maior torcida nacional.

Já em 2016 o monopólio da Globo nas transmissões de partidas de futebol começou a ruir com a entrada em campo do Esporte Interativo, que começou a fechar os direitos para transmitir jogos de campeonatos brasileiros da séria A, B e C a partir de 2019. Mas até então isso não resvalava na Seleção.

O primeiro atrito entre CBF e Globo aconteceu no início de 2017, no amistoso entre Brasil e Colômbia para homenagear as vítimas da Chapecoense. A Globo não quis comprar o direito de transmissão do jogo pela bagatela de 2 milhões de reais. A CBF não gostou da “rebeldia” da parceira e decidiu abrir o sinal da partida.

Depois disso, a Globo aguardava o leilão (bid) que a CBF faz para vender o “pacote” de jogos amistosos da seleção. Mas eis que a Confederação decidiu comercializar as partidas da Austrália de forma avulsa.

Novos jogadores mudam as regras do jogo

A blindagem da Globo para impedir que novos modelos de negócio envolvendo a transmissão de jogos chegassem no Brasil foi furada. Em outros países, a compra dos direitos e a divisão das cotas já envolve de forma mais direta os canais de TV por assinatura e, mais recentemente, serviços da internet entram na arena: Facebook, Twitter e Youtube.

De um lado, clubes e confederações buscam diversificar a oferta e obter mais lucro com a comercialização das partidas. A CBF, inclusive, começa a investir mais na geração direta das imagens. Assim, pretendem arrecadar mais dinheiro com patrocínio e a venda do sinal para as emissoras que adquirirem o direito de transmissão.

Para a Globo, se este modelo se consolidar será um desastre. Além de perder a hegemonia mantida até hoje, a emissora vai perder milhões de reais com a venda de publicidade de forma exclusiva para veiculação nos intervalos e durante os jogos.

Tanto é que a direção da emissora já começa a fazer mudanças na equipe para tentar impedir que a Globo fique em desvantagem: deve entrar com tudo para garantir a compra dos próximos amistosos e das Eliminátórias no lote a ser colocado à venda pela CBF para o período de 2018 a 2022.

Facebook está de olho nos cifrões do futebol

A transmissão de jogos pela internet já começa a crescer. As parcerias que o Facebook tem firmado envolvem inclusive negociações com as emissoras detentoras dos direitos de transmissão.

Mas há negociação feita diretamente com clubes e ligas. Em março, o Facebook fechou um acordo com a MLS, principal liga de futebol norte-americano, para a transmissão de 22 jogos. Twitter também já tem parcerias com a NBA (basquete) e a NFL (futebol americano).

A transmissão de eventos esportivos é um filão bilionário e é claro que Mark Zuckerberg está de olho nisso. Nós também temos que ficar de olho, porque a sociedade tem que aproveitar o novo ambiente digital como uma oportunidade para enfrentar o monopólio das transmissões.

Não podemos deixar que apenas se troque um monopólio por outro.

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Renata Mielli, Jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Colaborou Felipe Bianchi, jornalista, integrante do Coletivo Futebol, Mídia e Democracia do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Texto originalmente publicado no Midia NINJA

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Aniversário de 7 anos do Barão de Itararé !! Ajude o Barão continuar a existir!

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Fundado em 2010, o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé comemora sete anos de vida com festa no dia 30 de maio. O encontro, que reunirá ativistas, jornalistas, blogueiros e simpatizantes da luta desempenhada pela entidade nesse período, também servirá para arrecadar fundos e ajudar o Barão de Itararé a seguir na luta. A confraternização começa a partir das 18h30, no restaurante Feijão do Norte, na Galeria Metrópole (Av. São Luiz, 187, 2ª sobreloja). Garanta o seu convite aqui => https://pag.ae/bcj5snV )

O Barão de Itararé ganhou notoriedade por sua intensa participação na luta pela democratização da comunicação no país, seja nas ruas, em instâncias políticas ou a partir da promoção de diversos debates, seminários, palestras e cursos de formação. Ao longo dos sete anos de vida, a entidade também realizou um encontro mundial e vários encontros nacionais, estaduais e regionais de blogueiros e ativistas digitais.

Com sede própria desde 2012, no centro de São Paulo, o Barão fortaleceu a sua atuação em todo o país a partir da formação de núcleos estaduais. Atualmente, a entidade também ocupa a coordenação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), organização que aglomera a sociedade civil e o movimento social brasileiro em torno da pauta da comunicação.

Após o golpe midiático, judicial e parlamentar de 2016, as mídias alternativas passaram a sofrer um verdadeiro cerco imposto pelo novo governo: além do rompimento unilateral de contratos de publicidade, que nunca atenderam as necessidades do setor para garantir uma mídia diversa e plural, as mídias independentes também enfrentam a onda de criminalização contra os movimentos sociais brasileiros.

O Barão comemora seu sétimo aniversário com escassez de recursos, mas energia de sobra para seguir em frente. Por isso, a contribuição para a festa de aniversário da entidade é um gesto de solidariedade, com a finalidade de manutenção e ampliação de suas atividades.

O valor de adesão à festa e à causa é de R$ 150 por pessoa, com direito à comida e bebida à vontade no restaurante Feijão do Norte. Confira o cardápio e garanta a sua participação através dos botões de pagamento ao fim da página!

Cardápio

ENTRADA

Dadinho de Tapioca
Bolinho de carne seca com queijo coalho
Torradinha do Jo (carne seca, berinjela e queijo)

PRATO PRINCIPAL

Baião de 2 (Arroz, feijão de corda, carne seca, bacon, calabresa, queijo coalho, mandioca e carne de sol)
Bobó de camarão (camarão refogado com legumes, creme de mandioca e arroz)
Escondidinho de carne seca (carne seca, creme de mandioca com requeijão catupiry, queijo e arroz)

SOBREMESA

Abóbora com coco e queijo coalho
Pudim de leite condensado

BEBIDAS

Água com gás ou sem gás
Refrigerante: Coca-Cola, Fanta Laranja, Fanta uva, Schw Citrus, Soda, H2o limão, H2o limoneto, Agua Tonica e Guarana
Cerveja: Brahma e Skol
Caipirinha de limão e morango (cachaça, vodka ou saquê)

DIVERSÃO

Bilhar

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LIBERDADE DE EXPRESSÃO E ATAQUES À DEMOCRACIA EM DEBATE NO BARÃO DE ITARARÉ

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O PAPEL DA IMPRENSA NO JULGAMENTO DE LULA

Fonte: The Intercept Brasil

DEPOIS DE VAZAR ilegalmente para a Globo conversas particulares de Lula, de pedir o apoio da opinião pública através da imprensa, de ter discursado em eventos patrocinados por políticos do PSDB, de ter sua esposa dando entrevistas e aparecendo em capas de revistas, de assistir docilmente diversos vazamentos ilegais — e condenar apenas um, justamente o que em tese favoreceria a Lula — , o juiz Sérgio Moro teve a coragem de afirmar não ter nada  a ver com o que é publicado pela imprensa.

“o senhor tem essas reclamações com a imprensa, e eu compreendo, mas o juiz não tem nenhuma relação com o que a imprensa publica ou não publica, e esses processos são públicos”.

Moro afronta a realidade dos fatos na tentativa de conferir legitimidade a um processo que já está caracterizado como uma briga entre um juiz e um réu. Quem acompanha minimamente o noticiário nos últimos anos, sabe que Moro encarnou com gosto o papel de mocinho no espetáculo midiático em que Lula já foi condenado como vilão. A narrativa da luta do mocinho implacável contra a corrupção versus o bandidão-chefe de quadrilha brilhou nas manchetes de jornais e capas de revista. É compreensível a tentativa de Moro em querer minimizar o papel da imprensa no caso, mesmo tendo em diversos momentos do interrogatório sustentado suas afirmações com base em publicações da grande mídia.

O clima de embate político instalado durante os dias que se antecederam ao depoimento se confirmou na quarta-feira. Apesar de a tropa de choque de jornalistas da Globo News passar a noite inteira amenizando o caráter político da atuação de Moro e ressaltando o de Lula, o que se viu em boa parte do interrogatório foi, sim, um debate político entre um juiz e um réu, por mais inacreditável que isso possa parecer.

Dos integrantes da tropa de choque destacada para cobrir o caso, Dony De Nuccio, Natuza Nery, Merval Pereira, Eliane Cantanhêde e Cristiana Lobo demonstraram claramente de que lado estavam. Havia uma premissa clara em todas as análises: Lula é culpado.

Cristiana Lobo, talvez empolgada pela grande sacada, repetiu por várias vezes ao vivo na Globo News algo como “Voltou o Lula do mensalão, que não sabia de nada”.

O que Lula mais repete no interrogatório é que não sabia. Tal como no mensalão.

A surrada carta do “Lula não sabia de nada” voltou para o espetáculo. Claro, o vilão da Rede Globo só poderia estar mentindo. Merval também insistiu na tese de que “Lula jogou a culpa na Marisa”.

A jornalista Natuza Nery disse no dia seguinte que “o curioso nesse interrogatório é que Lula tentou ficar em sua arena de conforto, a arena política, enquanto Sérgio Moro tentava puxá-lo para arena de conforto do juiz, que é a arena jurídica”. Não foi bem assim. De fato, em muitos momentos, Moro tentou puxar o político para o campo jurídico, mas, em outros, não se furtou ao debate. Não foi pouco o tempo que Moro dedicou a assuntos de natureza política sem nenhuma relação com o caso do triplex, como veremos mais a seguir.

Natuza também relatou uma conversa que teve com procuradores da Lava Jato. Eles teriam dito que “tudo saiu da normalidade. Não dá pra dizer que um lado nocauteou o outro, embora aliados do petista achem que ele teria ganhado esse embate”. Ou seja, até mesmo os procuradores admitem com naturalidade para a imprensa que estamos diante de uma disputa entre um juiz e um réu. Fica cada vez mais difícil acreditar que estamos diante de um julgamento justo.

Laerte

É compreensível que o réu, um político que acredita estar sendo vítima de perseguição política e jurídica, traga o depoimento para sua zona de conforto. Mas é inadmissível que um juiz tope essa disputa no campo político, fato que se repetiu em diversos momentos. Moro trouxe declarações não relacionadas ao caso e ressuscitou o caso do Mensalão no depoimento. Vejamos:

São perguntas que jornalistas da Globo News fariam com intuito de render boas manchetes, mas não me parecem adequadas dentro do âmbito de uma ação que julga uma acusação referente a três contratos firmados entre OAS e Petrobras e o triplex do Guarujá.

Foram várias as perguntas feitas sobre o Mensalão — caso ocorrido há 12 anos — , a maioria delas baseada em declarações que Lula deu à imprensa. Esta parte do interrogatório indignou os advogados de defesa, que chamaram a atenção para a natureza política das perguntas e orientaram o réu a não responder.

Moro, com o curioso apoio da promotoria, respondeu à reclamação dizendo que as informações eram relevantes para entender a relação de Lula com subordinados e contribuir para a  “formação da convicção judicial”.

E sabe quem concorda com os advogados de Lula? Novamente ele, senhores e senhores,  Reinaldo Azevedo — o maior antilulista dos últimos 15 anos fez uma avaliação que destoou da narrativa abraçada pela igrejinha da grande mídia.

“a maioria das perguntas do juiz nada tinha a ver com processo no qual depunha o petista.”

“Sem poder apresentar provas de que o tríplex pertence a Lula, Moro optou por uma condução da audiência que fez picadinho do devido processo legal.”

“No estado de direito, condena-se com provas. E Moro não as tinha. Ao contrário, as evidências materiais apontam que o imóvel pertence à OAS.”

“Moro optou por um comportamento lamentável, que agride o devido processo legal. Resolveu fazer perguntas a Lula que diziam respeito aos quatro outros inquéritos a que o petista responde.”

“o juiz demonstrou incômodo com a liderança política de Lula, o que é um despropósito. Quis saber por que o ex-mandatário emitiu juízos contraditórios sobre o… mensalão!!! O que a dita Ação Penal 470 tinha a ver com o apartamento de Guarujá? Nada!”

A flagrante condução política do julgamento conseguiu a façanha de colocar Reinaldo Azevedo ao lado de Lula para poder defender o Estado de Direito. É simbólico demais.

Nas considerações finais, Lula discursou sobre a perseguição que sofre pela grande imprensa e apresentou números do Manchetômetro. O juiz não gostou e, como se fosse um oponente político em debate eleitoral, disse que também é perseguido por parte da imprensa: “infelizmente, eu já sou atacado por bastante gente, inclusive por blogs supostamente que supostamente patrocinam o senhor. Então padeço dos mesmos males em certa medida”.

Ora, ora. Ao final do interrogatório, o juiz faz uma ilação estranha sobre “blogs que patrocinam” Lula. Mas não vamos nos apegar ao estranho uso do verbo “patrocinar”, mas ao fato de o julgador se colocar como uma das partes do processo e afirmar que está sendo atacado por aliados do réu. Parece que há, sim, influência da imprensa no julgamento, não é mesmo? Usando esta mesma linha de raciocínio, talvez seja possível dizer que a Globo patrocina o nobre magistrado.

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